O Risco na Perspectiva da Torá.
O Risco na Perspectiva da Torá.
Por Thiago Chessed
Introdução
A palavra risco normalmente desperta medo, insegurança e resistência. Para muitos, arriscar-se significa colocar tudo a perder. Porém, à luz da Torá e da Cabalá, especialmente quando falamos da jornada dos Bnei Anussim, o verdadeiro perigo não está em arriscar — mas em não se arriscar em nada.
A história do povo judeu é, desde Avraham Avinu, uma história de risco consciente, fé ativa e saída constante da zona de conforto. Este estudo busca aprofundar o conceito espiritual do risco, mostrando que ele não é imprudência, mas sim um instrumento de crescimento, retificação (Tikún) e revelação da identidade.
1. O Maior Risco: Não se Arriscar
A Cabalá ensina que a alma desce a este mundo com uma missão específica. Quando a pessoa escolhe a estagnação, o medo e a neutralidade, ela deixa de cumprir o propósito para o qual foi criada.
O rei Shlomo diz:
"Quem observa o vento nunca semeará, e o que olha para as nuvens nunca colherá." (Kohelet / Eclesiastes 11:4)
Espiritualmente, isso significa que quem espera segurança absoluta jamais viverá seu potencial. A alma que evita o risco por medo da dor acaba assumindo um risco muito maior: viver uma vida incompleta.
Para os Bnei Anussim, esse ensinamento é ainda mais profundo. Muitos carregam o risco do silêncio, da ocultação e da negação de suas raízes por gerações. Continuar escondido pode parecer seguro, mas espiritualmente é uma forma de exílio prolongado.
2. Avraham Avinu: O Arquétipo do Risco Sagrado
Avraham Avinu é o primeiro judeu não porque nasceu judeu, mas porque teve coragem de romper com tudo:
- Rompeu com a idolatria
- Rompeu com a sociedade
- Rompeu com a casa do pai
- Caminhou para uma terra desconhecida
"Lech Lechá" — Vai para ti mesmo. (Bereshit 12:1)
A Cabalá explica que este chamado não era apenas geográfico, mas existencial. Avraham precisou arriscar tudo para se tornar quem ele realmente era.
Assim também ocorre com os Bnei Anussim: assumir a identidade, estudar Torá, aproximar-se do judaísmo e viver com consciência espiritual exige risco — mas é um risco alinhado com a verdade da alma.
3. Sair da Zona de Conforto é um Ato Espiritual
Na linguagem cabalística, a zona de conforto está ligada à Klipá — a casca espiritual que mantém a pessoa presa ao automático, ao medo e à repetição.
O crescimento ocorre quando a pessoa acessa a Luz que está além do hábito.
O Zôhar ensina que:
"Não há revelação de Luz sem movimento."
Mover-se significa:
- Estudar mesmo sem entender tudo
- Assumir práticas gradualmente
- Questionar a própria história
- Enfrentar críticas, solidão e dúvidas
Para o Bnei Anussim, sair da zona de conforto é muitas vezes sair do anonimato espiritual e caminhar rumo à reconexão com o povo de Israel.
4. Confiança (Bitachón) Não é Ausência de Medo
Um erro comum é pensar que os grandes vencedores da vida não sentem medo. A Torá ensina o contrário.
Confiança, ou Bitachón, não é a ausência do medo, mas a decisão de agir apesar dele, confiando que HaShem guia cada passo.
O salmista declara:
"Mesmo que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal algum, pois Tu estás comigo." (Tehilim 23)
Os grandes homens e mulheres espirituais não foram paralisados pelo medo — eles o subordinaram à fé.
5. O Risco de Ser Assumido
Para muitos Bnei Anussim, o maior desafio não é aprender, mas assumir:
- Assumir perante si mesmo
- Assumir perante a família
- Assumir perante o mundo
Este é um risco real. Mas a Cabalá ensina que quando a pessoa vive desalinhada com sua essência, sua energia espiritual se fragmenta.
Assumir-se não é rebeldia — é integração da alma.
O Arizal ensina que almas que passaram por ocultamento retornam em gerações posteriores com um chamado interno impossível de silenciar.
6. Os Grandes Vencedores da Vida
Os verdadeiros vencedores não são os que nunca erram, mas os que:
- Confiam
- Avançam
- Aprendem com as quedas
- Permanecem fiéis à verdade
Na visão da Torá, vencer não é dominar os outros, mas dominar o medo interno.
"Quem é forte? Aquele que domina sua inclinação." (Pirkei Avot 4:1)
A confiança espiritual gera clareza, e a clareza gera ação.
Conclusão: Escolher o Risco Certo
A vida sempre terá riscos. A pergunta não é se você vai arriscar, mas em quê.
- Arriscar-se a permanecer oculto
- Ou arriscar-se a viver sua verdade
Para os Bnei Anussim, o chamado é claro: o maior risco é passar pela vida sem responder ao despertar da alma.
Que possamos escolher o risco que nos aproxima da Luz, da Torá e da nossa verdadeira identidade.
Que HaShem fortaleça todos aqueles que têm coragem de sair da zona de conforto e caminhar em direção à verdade.
— Thiago Chessed

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